Por que a preguiça?

Apresentação

A pergunta é na exata proporção da importância de uma atividade esquecida, pois classificada, irrefletidamente, como inatividade. Na exata proporção em que se aceita a preguiça, tão prontamente, indexada entre os pecados capitais (o termo, aqui, em ambos os seus sentidos), ao mesmo tempo em que se marginaliza toda uma linhagem reflexiva que quis dar ao tempo outro sentido (pois, enfim, é disso que se trata) – “tempo” avesso a sentidos, em que o pensamento assume novo tom: o sem finalidades, e, não por isso, menos criador; não, pelo menos, segundo Tales, Sêneca, Platão, Aristóteles, Montaigne, Jean-Jacques Rousseau, Charles Baudelaire, Paul Lafargue, Walter Benjamin, Bertrand Russel, Wittgenstein, Michel Foucault, T. S. Eliot, Bob Black, Bernardo de Guimaraens, Mário Quintana.

Enfim, uma frase de autoria de Albert Camus dá conta da subversão implícita ao tema: “São os ociosos que mudam o mundo porque os outros não tem tempo algum”, o que é uma forma espirituosa de suscitar perguntas, cujas inflexões permeam todas as conferências integradas ao evento: “O que se deve fazer?” Ou: “O que estamos fazendo de nossas vidas; de nossas vidas em sociedade?” Ou ainda: “Deve-se fazer sem pensar o que se faz?”.

Deite e devaneie, este blog poderia propor, não fosse aqui um espaço contrário a imperativos.

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Ilha de tempo

O professor Renato Lessa tratará da preguiça perfeita. Seria ela parecida com um momento capturado por Paul Valéry?

“Fizeste para ti uma ilha de tempo, tu és um tempo que se desprendeu do Tempo enorme no qual tua duração infinita subsiste e se eterniza como um anel de fumo.”

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Preguiça perfeita

O professor Lessa cuidará de um experimento hoje: tentar saber de uma preguiça além da qual nenhuma preguiça é possível. Será possível para nós, seres em meio a fluxos; feitos deles?

E eis que se lê numa obra de Fernando Pessoa, sugestivamente intitulada: “Livro do desassossego”: “Pasmo sempre que acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha covardia”.

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Wittgenstein Pessoa

Hoje, o professor Maia Neto tratará de Wittgenstein; de linguagem, portanto. Esta que também foi analisada por Fernando Pessoa:

“Se quiser dizer que existo, direi: ‘Sou’. Se quiser dizer que existo como alma separada, direi: ‘Sou eu’. Mas se quiser dizer que existo como entidade [...], direi: ‘Sou-me’.”

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Em nossas pressas

Nós, metidos em nossas pressas, e os livros:

“É com sentimentos duvidosos que entrego [minhas observações] ao público. Não é impossível que seja dado a este trabalho, em sua indigência, e nas trevas deste tempo, lançar luz numa ou noutra cabeça; mas, naturalmente, não é provável.”

Ludwig Wittgenstein

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Espaço-lazer

A experiência urbana era tema de destaque para os “Situacionistas”. Era também para nosso demolidor e recriador de espaços Hélio Oiticica, com destaque para a exposição “Whitechapel experience”, em que se trabalhou a idéia de “espaço-lazer”.

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Cidade invertida

O professor Guilherme Wisnik tratará das nossas relações com a cidade, passando pelo crivo da utopia situacionista (movimento cujo mentor foi Guy Debord).

Entre os arquitetos que constituíram o movimento “situacionista”, esteve Gilles Ivain; o mais radical deles, talvez. Tanto que tentou desconstruir a Torre Eiffel. Escreveu a favor de um novo urbanismo, cujo pressuposto fundamental era a cidade realmente vivida; o exato contrário de como nos relacionamos com a nossa: casa-transporte-trabalho-transporte-casa. Eis um de seus formulários, repleto de poesia:

“Percorrer a cidade é entediante, já não existe mais templo do sol. Por entre as pernas das passantes, os dadaístas queriam encontrar uma chave inglesa, e os surrealistas uma taça de cristal. Não deu certo. Sabemos ler nos rostos todas as promessas, último estado da morfologia. A poesia dos cartazes durou vinte anos. Percorrer a cidade é entediante, é preciso fazer um tremendo esforço para descobrir ainda algo de misterioso nas tabuletas da rua, último estado do humor e da poesia…”

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Tempo em Sobral

Como hoje o tema é física; mais especificamente, tempo:

Um eclipse total do Sol em 1919, observado por uma equipe inglesa de cientistas na cidade de Sobral, no Ceará, foi o responsável por fazer do físico alemao Albert Einstein (1879-1955) uma das maiores celebridades deste século.

Nesse fenômeno, ficaram comprovadas as idéias de Einstein sobre os efeitos da gravidade sobre a luz.

Fotografando estrelas posicionadas próximas à borda do Sol, foi possível mostrar que os raios de luz emitidos por elas “entortavam-se” ao passarem perto do Sol, atraídos por seu intenso campo gravitacional.

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Tempo

Luiz Alberto Oliveira, físico e palestrante de hoje.

O tempo eterno; o tempo das épocas; o tempo das ocasiões – somam-se para, na física, dar origem aos chamados “sistemas complexos”, de que se valem, hoje, as humanidades e as artes.

“Os anos são viajantes do tempo. Os séculos também.
O andarilho, o guerreiro sobre seu cavalo e o navegante em seu barco viajam no tempo – mesmo quando estão em casa.”

Li Po

Ao lado, “Queda d’água”, de autoria de Hokusai.

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Francisco Chuang-Tsê Bosco

Pelo professor de hoje: Francisco Bosco:

Sobre as virtudes da lentidão – ao leitor lento:

“Entre as múltiplas virtudes de Chuang-Tsê estava a habilidade para desenhar. O rei pediu-lhe que desenhasse um caranguejo. Chuang-Tsê disse que para fazê-lo precisaria de cinco anos e uma casa com doze empregados. Passados cinco anos, não havia sequer começado o desenho. ‘Preciso de outros cinco anos’, disse Chuang-Tsê. O rei concordou. Ao completar-se o décimo ano, Chuang-Tsê pegou o pincel e num instante, com um único gesto, desenhou um caranguejo, o mais perfeito caranguejo que jamais se viu.”

Italo Calvino. “Seis propostas para o próximo milênio.”

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